sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O HOMEM QUE BOMBARDEOU HIROSHIMA


Ainda há pouco, estava numa UTI de hospital, com agulhas perfurando minhas veias, ligadas à mangueirinha do soro, que ia pingando, pingando, como se medisse o tempo. Meu peito subia descia involuntariamente ao compasso do balão de oxigênio. Vi o teto branco da UTI, a luz da lâmpada fluorescente ofuscando meus olhos, senti a boca e a garganta secas. As paredes e o teto foram ficando cada vez mais brancos. A luz da lâmpada cada vez mais intensa...
De repente, estou no quadrimotor B-29 que batizei de  Enola Gay, em homenagem à minha mãe. Há muitos soldados comigo, mas nenhum sabe qual é a nossa missão. A ordem era eu não contar.
É  manhã do dia 6 de agosto de 1945. Lá de cima avisto o rio Ota. Lá de cima avisto Hiroshima. Na barriga do meu avião está a Litle Boy. Enola Gay, minha mãe, está novamente grávida, prestes à dar a luz a 210 mil mortos...  Sei que a maioria dos que estão lá embaixo são crianças, mulheres e velhos. Os rapazes e homens japoneses foram recrutados para a guerra.
A Little Boy é uma garotinha de 3,2 metros de comprimento, 74 centímetros de diâmetro e 4,3 toneladas de peso. Uma bola de fogo, cuja temperatura no núcleo é de pelo menos 200 mil °C, criará uma sucessão de ondas de abalos. Ventos de até 965 km/h sugarão a poeira para cima e criarão uma nuvem em forma de cogumelo, que cairá sob a forma de chuva radioativa nos arredores da cidade. Sei que nos primeiros segundos  70 mil crianças, velhos e mulheres, filhos, irmãos, pais, mães, avós serão carbonizados instantaneamente pela enorme nuvem em forma de cogumelo. Milhares de feridos em carne viva correrão para os hospitais, que no entanto, já estarão destruídos. Procurarão por médicos e enfermeiras que já estarão  mortos.
Raios de calor entre 3 mil a 4 mil graus Celsius provocarão queimaduras e ferimentos internos nas pessoas, incêndios se espalharão por quilômetros dentro da cidade. As queimaduras farão a pele cair em tiras deixando à vista a carne sangrenta. Muitos pularão desesperados no Rio Ota, tentando cessar a dor. Centenas de pessoas se contorcerão na correnteza. Muitas não saberão nadar. Uma chuva preta, oleosa e pesada cairá ao longo do dia junto à poeira radioativa. Os sobreviventes e os seus descendentes sofrerão seqüelas para sempre, além de deformações físicas permanentes e moléstias de longo prazo, como o câncer. Muitos viverão com pedaços de vidros e estilhaços incrustados no corpo.
Sim, eu sei disso tudo. A ordem do Presidente Trumman é lançar a bomba, mas eu estou no comando desse avião. A decisão é minha. A alavanca do alçapão que soltará a bomba está em minhas mãos. Lá embaixo está Hiroshima.
-          Foda-se o imbecil do Presidente Trumman! – E ao invés de soltar a bomba me jogo do avião...
***
Sei que acabo de morrer numa cama de hospital e ao entrar na eternidade, estou tentando enganar-me, enganá-la. Sim, eu joguei aquela bomba, mas agora estou caindo, por todo o espaço infinito, numa queda sem direção, infinítupla e vazia. Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada, e nas águas que são mais giro que águas bóiam todas as imagens do que vi e ouvi no mundo — vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo.
E eu, verdadeiramente eu, sou o centro que não há nisto senão por uma geometria do abismo; sou o nada em torno do qual este movimento gira, só para que gire, sem que esse centro exista senão porque todo o círculo o tem. Eu, verdadeiramente eu, sou o poço sem muros, mas com a viscosidade dos muros, o centro de tudo com o nada à roda. E é, em mim, como se o inferno ele-mesmo risse, sem ao menos a humanidade de diabos a rirem, a loucura grasnada do universo morto, o cadáver rodante do espaço físico, o fim de todos os mundos flutuando negro ao vento, disforme, anacrônico, sem Deus que o houvesse criado, sem ele mesmo que está rodando nas trevas das trevas, impossível, único, tudo. Minha mãe morreu muito cedo...
-            Enola Gay! – Grito o seu nome, que morre mudo no vácuo,  e o corpo de minha alma continua a cair no infinito, eternamente.



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